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Um caso especial de cinismo político?Kandando                     Angola e Portugal viveram nos últimos dias a crise das cartas de condução, a alimentar receios vários e, sobretudo, a estimular ódios e ressentimentos antigos que, rapidamente, foram trazidos de volta a um presente que às vezes parece ter mais a ver com o passado do que com os desafios do futuro.
Sem estarmos preocupados em apontar o dedo ao infractor, ao mínimo toque nas respectivas canelas, Angola e Portugal voltam com uma facilidade impressionante ao passado, particularmente àquela secção menos simpática de um pretérito mais do que imperfeito que é para esquecer, que já deveria ter sido esquecida.
Estamos a falar do passado das humilhações, da violência, do racismo aberto e encapotado, da exploração desenfreada, da dependência e da submissão.
Trinta anos depois da litigiosa separação, pouco adiantará fazer esta viagem com tanta frequência.
A não ser, que os interesses dos diferentes protagonistas de ambos os lados sejam outros; sejam diferentes daqueles que todos os dias são proclamados nos discursos oficiais, como acaba de acontecer muito recentemente durante a viagem que João Miranda efectuou a Lisboa.
Felizmente para os cidadãos dos dois países o problema das cartas já foi ultrapassado.
Não há palmas nem elogios para ninguém pelo menos da nossa parte, porque ninguém fez por merecê-lo.
Críticas ao comportamento aos políticos dos dois países e das suas administrações existem certamente.
São muitas e de uma forma geral todas justas do ponto de vista de quem acha que há coisas que já não fazem muito sentido quando já nos entendemos em português há vários séculos.
Numa das rádios de Luanda ouvimos um cidadão português manifestar toda a sua indignação pelo que se estava a passar.
Como é possível que as relações entre os dois países tenham atingido o nível de uma carta de condução, interrogou-se o referido português visivelmente irritado com as autoridades do seu país que, segundo ele, não souberam prever o impacto da medida junto da comunidade que vive em Angola.
Enquanto se aguarda pelo próximo “kizangú” (qual será desta vez?), a crise das cartas de condução que se seguiu à recente maka dos vistos veio uma vez mais colocar na ordem do dia um relacionamento muito especial entre dois países, dois governos e dois povos.
O relacionamento entre Angola e Portugal é de facto um caso muito especial do ponto de vista dos equívocos para todos os gostos e feitios e do cinismo político para todas as idades e modalidades.
Um verdadeiro “case study”.
Não gostaríamos de concluir que tudo no relacionamento político entre Angola e Portugal cheira a falso, mas de facto começamos a ficar cansados com a retórica dos políticos de ambos os lados.
Uma retórica que é ostensivamente ignorada no mesmo dia pelas administrações dos dois países, como se estas e os seus vigilantes funcionários vivessem em permanente competição a ver quem é que trama mais a vida do parceiro.
O parceiro aqui é o cidadão comum.
Angolanos e Portugueses sem outras credenciais mais políticas são as vítimas preferências das referidas administrações.
Em todo o lado onde estas administrações se encontrem quem paga é o cidadão comum, aliás, o inimigo público comum.
As duas administrações parecem apostadas em não permitir que os políticos dos dois países tenham o mínimo de credibilidade nos seus construtivos propósitos.
A conspiração da burocracia, com destaque para a securitária, contra o poder político tem sido tema para os mais diferentes estudos e análises em todo o mundo.
Definitivamente e à falta de uma melhor explicação, Angola e Portugal estão a ser vítimas desta burocracia, aliás, o seu relacionamento já é refém dela.