Angola já está a combater no leste do Congo
Portuguese News Network
Enquanto o secretário-geral da ONU e líderes africanos tentam em Nairobi, capital queniana, encontrar uma solução para o conflito no Leste do Congo, Angola já está a operar militarmente na região.
Um funcionário da ONU confirmou à Associated Press (AP) que Angola já está a operar militarmente no leste do Congo ao lado das tropas governamentais. A mesma fonte afirmou que um número indeterminado de militares angolanos desembarcou na região há quatro dias, respondendo positivamente ao apelo de 29 de Outubro do Governo de Kinshasa quando solicitou a Luanda ajuda politica e militar.
Com a presença militar angolana teme-se que o conflito, ainda circunscrito à província Kivu Norte, se internacionalize nesta região africana, e provoque uma reacção do governo ruandês que tem sido acusado de apoiar a ofensiva tutsi do general Laurent Nkundabatware (Nkunda) líder do Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP).
Tal situação dificultará também a aplicação do cessar-fogo, pedido na declaração final da reunião de Nairobi, na presença do chefe de Estado congolês, Joseph Kabila, e do seu homologo ruandês, Paul Kagamé, que permitiria a abertura de um corredor humanitário de apoio aos milhares de refugiados.
Enquanto já se ouvem tiros do CNDP às portas de Goma, o Governo congolês acusa os soldados da paz da ONU, apesar de terem ordens para disparar, de não impedirem o «massacre» de civis. A responsabilização da Missão da ONU para o Congo (Monuc) vai deteriorar ainda mais a imagem dos 17 mil Capacetes Azuis presentes no país, os quais já eram acusados pela população de estarem no Congo apenas para defenderem os interesses internacionais e impor a presidência de Joseph Kabila.
Por outro lado a Monuc, que necessita urgentemente de reforços, tenta evitar o erro cometido pelos Capacetes Azuis no Ruanda em 1994 quando não impediu o genocídio dos tutsis perpetrado pelo governo de Kigali que na altura era composto maioritariamente por elementos da etnia rival hutu, o qual provocou mais de 800 mil mortos. Derrotados pelas forças do actual presidente, Paul Kagame, de etnia tutsi, os hutus ruandeses refugiaram-se no Congo junto à fronteira ruandesa, provocando por sua vez a exportação da tensão étnica para a RDC que já tinha recebido massivamente na mesma província refugiados tutsis.
Inicialmente interpretado como um conflito estritamente étnico, devido as declarações de Laurent Nkunda quando afirmou ser o defensor da minoria tutsi no Congo à qual pertence, a intervenção das tropas angolanas nesta região, aliado às denúncias da participação das milícias Mai Mai, acusados de terem violado o cessar-fogo, ao lado das tropas governamentais, poderá alargar a área do conflito e empurrar para a crise milícias que, perante a fragilização da presença da Monuc e das tropas governamentais, podem reactivar outras frentes de combate.
As milícias Mai Mai surgiram em 1964 durante a rebelião «simba» desencadeada por Gastão Soumialot e Laurent Kabila. O termo «Mai Mai», em lingala e swahili, refere a «água mágica» que torna os guerreiros invisíveis face às balas. Em 1967 as milícias Mai Mai reapareceram durante revoltas em Maniema e no Kivu onde ressurgem em 1990.
Afirma-se como um movimento nacionalista que alberga todas as etnias, excepto hutus e tutsis, estando presentes nos Kivus, Maniema e Katanga Norte. Segundo dados da ONU os Mai Mai contam com cerca de 30 mil combatentes nas províncias dos Kivus. Considerados como «ferozes guerreiros» os Mai Mai tornaram-se em temíveis «soldados profissionais».
A RDC, ex Zaire, ex Congo Belga, é o terceiro maior país de África. Conta com uma superfície semelhante à União Europeia, paradoxalmente dispõe de uma costa marítima de apenas 60 km, tem fronteira com dez países dos quais com Angola partilha a mais longa linha fronteiriça. O Congo conta com quatro línguas nacionais, swahili, lingala, kikongo e tshiluba, mas o francês, imposta pela antiga potência colonizadora, Bélgica, permanece a língua oficial. Etnicamente é um complexo puzzle que se subdivide em mais de 250 povos.